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Brasil deverá preencher potencial de exportação de carne bovina

Postado em 01/12/2015 - Fonte: Equipe BeefPoint

Há alguns anos, Iain Mars era uma figura importante na indústria de carne bovina da Austrália, atuando como CEO da JBS Austrália e membro da diretoria do Meat and Livestock Australia (MLA).

Em 2012, ele atravessou o Pacífico para ser diretor operacional (COO) da Minerva Foods, segunda maior processadora e exportadora de carne bovina do Brasil e também a maior exportadora de bovinos vivos do país, exportando cerca de 200.000 cabeças de gado por ano.

Mars começou sua extensa carreira na indústria global de carnes com o Vestey Group, em Londres, antes de ter seu primeiro trabalho no exterior no Anglis Meatworks, em Darwin, em 1984. Desde então, ele trabalhou na gestão sênior da indústria de carnes em 10 países.

Mars retornou à Austrália nessa semana, onde forneceu uma análise sobre como a indústria de carne bovina e de bovinos da Austrália é vista por seus competidores globais, em um evento para cerca de 200 produtores, criadores, exportadores e outros membros da indústria na conferência LivexChange, em Darwin.

Ele começou elogiando a indústria de exportação de animais da Austrália por seus padrões que são líderes mundiais em termos de bem-estar animal e rastreabilidade, que ele disse que dá à indústria exportadora de animais do Brasil, mais jovem, mas comparativamente maior, um padrão para ter como objetivo.

O foco primário de sua fala foi o status existente dos mercados globais de carne bovina e como os exportadores concorrentes estão se posicionando para capitalizar sobre a contínua forte demanda global por carne bovina, particularmente na Ásia.

A indústria de carne bovina da Austrália, altamente dependente das exportações, foi muitas vezes alertada que o Brasil e outras potências da América do Sul deverão conquistar importantes mercados.

Vários fatores evitaram que isso acontecesse no passado, como o próprio mercado doméstico brasileiro, que é grande e consome cerca de 80% de sua própria produção, e as questões de acesso a mercados do Brasil que evitaram que o país exportasse volumes maiores de carne bovina no passado (mas vale a pena notar que o Brasil ainda é o maior exportador de carne bovina do mundo, com cerca de duas milhões de toneladas exportadas em 2014, comparado com 1,85 milhão de toneladas da Índia e 1,77 milhão de toneladas da Austrália).

Entretanto, Mars disse na conferência que os esforços do Brasil para se livrar da febre aftosa progrediram bem, com todos os animais agora sendo vacinados contra a doença. O Brasil atualmente tem acesso a apenas 46% da demanda global por carne bovina. Porém, isso deverá mudar com o Brasil a caminho de obter acesso a mais mercados importantes, que poderão em breve abrir a produção do país para 80% dos mercados globais de carne bovina.

O Brasil retomou o acesso à China no começo desse ano, quando oito plantas foram aprovadas para fornecer a esse importante mercado. Mars disse que a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, está “trabalhando duro” para abrir novos mercados. “Ela esteve na China na semana passada e conseguiu a aprovação para mais três plantas, de forma que o Brasil agora terá 11”, disse ele. “Vemos que isso está crescendo mais e mais”.

A China poderá em breve se tornar o maior mercado de exportação do Brasil, disse ele. Kátia Abreu também confirmou na semana passada que a Arábia Saudita também abriu seu mercado para a carne bovina do Brasil.

Acesso ao mercado dos Estados Unidos

O Brasil está agora aparentemente muito perto de obter acesso para sua carne bovina fresca ao importante mercado dos Estados Unidos. As atuais circunstâncias de mercado adiaram esse processo um pouco, disse Mars, acrescentando que a Austrália tem “colocado tanta carne lá” nos últimos tempos que os estoques refrigerados estão atualmente cheios de produtos australianos, o que significa que “todos sofrerão” provavelmente nos próximos quatro a cinco meses.

Entretanto, o processo de licenciamento de plantas brasileiras para acesso aos Estados Unidos já está bem avançado. “Na semana passada, tivemos o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) avaliando nossas plantas, vendo se as aprova, e eles estão impulsionando com força. As pessoas nos dizem que os Estados Unidos não abrirão (para nossas plantas), mas ao mesmo tempo, temos o USDA aprovando plantas prontas para abertura. Duas de nossas plantas foram visitadas na semana passada e foram aprovadas – aprovadas em entre aspas, elas serão aprovadas quando o protocolo for assinado entre os dois governos. Porém, isso será muito forte para o Brasil”.

Mars disse que o Brasil tem muito gado magro e que preencheria a lacuna criada pela seca na Austrália. O Ministério da Agricultura do Brasil tinha anteriormente dito que o mercado dos Estados Unidos poderia potencialmente comprar pelo menos 100.000 toneladas de carne bovina brasileira dentro de cinco anos. A Austrália atingiu o limite de sua cota, de 418.214 toneladas ao mercado dos Estados Unidos esse ano.

Mars disse que o Brasil seria limitado por uma cota de 60.000 toneladas quando ganhar acesso ao mercado dos Estados Unidos. Entretanto, considerando que a Austrália não deverá cumprir toda a sua cota no próximo ano, ele previu que “poderá ter mais para o Brasil”.

Acredita-se também amplamente, disse Mars, que se os Estados Unidos fornecerem acesso à carne bovina brasileira, o Japão fará o mesmo. “Isso daria ao Brasil acesso a 72% da demanda global por carne bovina”. Se o Brasil também obtiver acesso ao mercado da Coreia do Sul, Canadá e México, teria acesso a 84% da demanda global por carne bovina.

As exportações de carne bovina do Brasil à região da Ásia cresceram de apenas 6% do total de seus volumes exportados em 2007 para 23% no ano passado. Em novembro, esse dado aumentou para 40%. “É um movimento muito, muito grande, e essas são mudanças muito significativas, especialmente quando vemos o que deverá acontecer com a oferta da Austrália”.

Oferta grande e em rápido crescimento impulsiona as aspirações

Os números contam a história das motivações do Brasil para aumentar seus mercados de exportação e para encontrar mercado para sua produção já grande e de rápido crescimento de carne bovina.

O Brasil tem um rebanho de 214 milhões de bovinos (quase 10 vezes o rebanho estimado da Austrália, de 24-25 milhões de cabeças) e uma taxa de abates semanais de 750.000 cabeças (a Austrália tem aproximadamente, em média, 150.000), dos quais 500.000 são abatidos em plantas qualificadas para exportar.

O rebanho brasileiro deverá crescer em quase 12 milhões de bovinos (aproximadamente metade do tamanho de todo o rebanho de corte australiano) nos próximos dois anos apenas.

Um impulso dedicado pelos pecuaristas brasileiros para produzir mais quilos de carne bovina por hectare ao invés de simplesmente tentar correr atrás dos preços também tem direcionado aumentos significativos na produção de carne bovina brasileira.

A mudança de sistemas de produção, como a introdução de “semi-confinamento” ou o fornecimento de acesso a grãos para bovinos no pasto ajudaram a impulsionar os ganhos de carcaça médios no Brasil em 7 quilos no ano passado. Isso foi parte de uma mudança muito positiva que ocorreu na indústria pecuária brasileira, disse Mars. Os produtores eram lucrativos, o que se refletia nos números crescendo rápido, crescimento na produtividade e investimento de capital ocorrendo na indústria.

Brasil está longe de alcançar pleno potencial de produção

E o Brasil está longe de alcançar seu potencial pleno de produção, disse Mars. Cerca de 187 milhões de hectares de terra no Brasil continuam inutilizadas, não de florestas, mas de terras agrícolas não desenvolvidas e potencialmente produtivas, enquanto as taxas de natalidade e as taxas de abate ainda têm espaço significativo para melhorar.

Mars disse que o Brasil e seus vizinhos da América do Sul, como Argentina, Uruguai, Paraguai e Colômbia, estão todos expandindo seus rebanhos. Ao mesmo tempo, todos os outros importantes rebanhos de exportação do mundo estão em níveis historicamente baixos de seus ciclos de produção.

A América do Sul é claramente a melhor colocada para fornecer o aumento projetado de 70% na produção requerida para satisfazer a demanda dos níveis projetados da população para 2050, disse Mars.

A Austrália liquidou seu rebanho nos últimos anos e terá significativamente menos carne bovina para exportar nos próximos anos, enquanto os Estados Unidos se tornaram um importador líquido devido à redução nos números.

Uma recente valorização do dólar (com relação ao Real) no Brasil também favoreceu seus exportadores. “No terceiro trimestre de 2015, o preço do gado em termos de dólar dos Estados Unidos caiu em 16% comparado com o preço médio no segundo trimestre, mas, por outro lado, o preço de exportação de carne bovina aumentou em 8%. Então, houve uma mudança de 24% na margem do spread, e vemos isso continuando. Baseado nos ganhos de produtividade e baseado em somente 20% desse estágio da carne bovina sendo exportada, há um enorme potencial para expansão da carne bovina brasileira”.

Exportações de animais vivos

O Minerva foi pioneiro nas exportações de bovinos vivos do Brasil quando exportou o primeiro lote de novilhos pesados para abate do Estado do Pará ao Líbano em 2003.

Mars disse que a indústria brasileira não tem nem de longe a sofisticação da indústria da Austrália, mas isso é algo que está buscando alcançar.

O Brasil exporta tipicamente cerca de 600.000 bovinos por ano (a Austrália, em comparação, exportou cerca de duas vezes esse volume nos últimos anos), mas suas exportações caíram dramaticamente para apenas 185.000 nesse ano, principalmente devido a problemas econômicos em seu principal mercado, a Venezuela.

O Minerva exporta cerca de 200.000 bovinos por ano em média, enviando bovinos para abate com cerca de 500 kg.

Mars disse que os bovinos para abate no Brasil atualmente têm um preço de R$ 147 (peso carcaça) em São Paulo e R$ 135 no Pará, estado que fornece a maior parte dos bovinos vivos para exportação.

O tempo de envio é de 5-6 dias para a Venezuela e cerca de 20 dias para o Oriente Médio.

Ele disse que o Brasil exportou alguns animais para engorda no ano passado e buscou oportunidades no restante do mundo.

O Minerva é um dos dois processadores de carne bovina do Brasil que também está envolvido no envio de animais vivos. “É normal para um processador enviar animais vivos, mas temos isso como fundamental para o negócio. Há partes do Brasil que, assim como a parte norte da Austrália, adaptam-se às vendas de gados vivos, e nós totalmente apoiamos o negócio de gados vivos e temos uma participação importante nisso”.

Com a Indonésia atualmente contemplando a abertura de suas fronteiras para a carne bovina e os bovinos vivos do Brasil, Mars foi questionado sobre a realidade de o Brasil exportar gados para o Sudeste da Ásia. “As pessoas dizem que é muito longe, mas não é muito longe”. Ele disse que o Brasil está trabalhando no desenvolvimento de protocolos para poder fornecer gados para abate a mercados como o Vietnã.

“Uma vez que o Brasil tiver os protocolos, estaremos em posição de fornecer a esse mercado animais prontos para o abate. A Indonésia é um mercado que sempre ouvimos dizer que é uma oportunidade entrar, mas não há protocolo. Há uma chance no futuro? Sim, há. A Indonésia quer bovinos para engorda. É um mercado que se há demanda, sempre lidaremos com essa ideia, mas há obstáculos para superar”.

Austrália: não critique suas estruturas e sistemas

Mars disse que se surpreendeu com o nível de negatividade dentro da indústria pecuária da Austrália, dizendo que as estruturas da indústria causavam inveja ao restante do mundo. “Eu me lembro quando estava aqui na JBS e em 1984, todas as associações recebiam muitas solicitações, todos diriam que havia muitos corpos, muitas empresas. Vocês têm algo que o resto do mundo gostaria de ter. Isso é fantástico, eu falo com os brasileiros sobre seus controles, que sua especificação de carcaça é padronizada, sua linguagem Ausmeat é padronizada, é absolutamente brilhante, não critiquem isso”.

Rejeição da venda da Kidman foi “xenofóbica”

Ele também questionou a decisão da Austrália de rejeitar as propostas chinesas para comprar a S Kidman & Co, dizendo que a medida refletia xenofobia em um momento em que a agricultura da Austrália precisava de mais capital estrangeiro.