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Como se proteger do El Niño na zona rural

19/11/2015 Fonte: Portal DBO

Especialistas ensinam os cuidados básicos com pessoas, animais, lavouras e construções

O fenômeno El Niño ganhou destaque após anúncio da Organização Meteorológica Mundial (OMM), ligada à ONU, de que irá ganhar força nos próximos meses e chegar a ser o terceiro mais intenso dos últimos 15 anos. Caracterizado pelo aquecimento das águas do Pacífico, o El Niño interfere no deslocamento de massas de ar e altera o regime de chuvas em regiões de latitudes médias e zonas tropicais, como o Brasil.

No Sul do país, para o fim do ano e início de 2016, são esperadas chuvas torrenciais, com aumento de 20% na ocorrência de tempestades em relação ao último verão. No Sudeste e no Centro-Oeste, a expectativa de aumento gira em torno de 20% e 10%, respectivamente, sendo as precipitações mais irregulares. No Norte e Nordeste, o tempo fica seco, com redução de 10% e 15% na ocorrência de tempestades. Os dados são do levantamento do Grupo de Eletricidade Atmosférica (ELAT) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), divulgado nesta terça-feira, 17.

Apesar das notícias terem causado alarde, Rodrigo Moratelli, secretário adjunto da Defesa Civil de Santa Catarina, afirma que não há motivo para pânico e que com medidas simples o agropecuarista pode se preparar para os efeitos do El Niño. Marco Antônio dos Santos, da Somar Meteorologia, reforça o coro e explica que o impacto para a agricultura não será necessariamente ruim.

Confira dicas para se preparar para o super-El Niño:
 
Como se proteger em local descampado - Se a chuva começar e não houver tempo hábil para procurar abrigo em local seguro, o mais indicado, segundo Rodrigo Moratelli, é ficar parado bem próximo ao solo. “Deitar-se no chão com as mãos sobre a cabeça é a melhor forma de se proteger do impacto de pedras de gelo, caso a chuva venha acompanhada de granizo, e evitar servir de para-raio”. Ele explica que permanecer de pé pode não ser uma boa ideia principalmente quando há ventos fortes capazes de carregar algum objeto e acertar quem está no caminho.

Ficar embaixo de árvores é terminantemente contra-indicado. Além de representarem perigo pela chance de queda de galhos, elas atraem raios. “Esses dias mesmo, aqui no Estado, o funcionário de uma fazenda se abrigou num trator próximo a uma árvore e acabou falecendo depois de ser alvo de uma descarga elétrica”, comenta Moratelli. No Sudeste, de agosto a outubro, a Rede Brasileira de Detecção de Descargas Atmosféricas registrou que 480 mil descargas elétricas atingiram o solo. Um aumento de 52% em relação ao mesmo período de 2014. 

Medidas para garantir a segurança do rebanho - Em currais onde há árvores próximas, a dica é instalar com antecedência um para-raio no ponto mais alto. Já frente a uma chuva torrencial, o indicado é avaliar se há tempo para arrebanhar os animais em local seguro. Se não houver, a decisão deve ser por mantê-los soltos e com total liberdade de locomoção. Guiados pelo instinto de sobrevivência, eles têm condições de decidir o que fazer diante de uma adversidade. “Eventos como a tsunami na Indonésia mostram que, independente da espécie, os animais lutam até o fim para escapar de situações de risco.” Moratelli cita o caso de um elefante que quebrou a própria corrente e correu para longe da zona de perigo. 

Cuidados necessários no trato do solo - É sabido que quando cai sobre o solo descoberto, a chuva provoca erosão. A fim de minimizar esse impacto, Marco Antônio dos Santos, da Somar Meteorologia, aponta o plantio direto com uso de palhada de cobertura como alternativa eficiente. “Assim o solo absorve melhor a água, sem que ocorra uma lavagem dos nutrientes”, diz o especialista da Somar. Para quebrar o vento que, geralmente, acompanha as tempestades, o produtor pode ainda plantar cercas-vivas.

E se de um lado o excesso de chuvas preocupa quando falamos no El Niño, as precipitações irregulares no Sudeste e Centro-Oeste se colocam como um desafio para o produtor. “A safra de soja, por exemplo, está atrasada nessas regiões por conta da falta de chuvas, mas o que o agricultor precisa entender é que a água necessária para o plantio vai vir, só que de forma mais espaçada”, afirma Santos. Segundo ele, ter os insumos e o maquinário prontos para plantar e colher no momento certo está sendo ainda mais determinante nessa safra. “O agricultor deve olhar o calendário irregular e planejar suas ações na lavoura. A soja precisa de uma média de 600 mm/ ciclo [de água] para se desenvolver e, mesmo com os efeitos do El Niño, irá chover mais do que isso”.

Precauções com a manutenção das estruturas - Na hora da chuva não há como corrigir problemas na edificação de casas e galpões. Para evitar danos ao patrimônio, a recomendação é que o produtor não levante nada sem supervisão de um engenheiro civil. Caso a precaução não seja tomada, antes do período chuvoso vale pedir a análise de um profissional sobre o aterramento das estruturas e sua cobertura ou telhado.

Como regra geral, a defesa civil recomenda evitar o uso de telhas de barro e das antigas coberturas de amianto em zonas onde há chuvas e ventos fortes. Adotar certo grau de inclinação entre o telhado e as barras de sustentação dos galpões também ajuda a reduzir o impacto do granizo e da chuva na construção. De qualquer modo, Moratelli frisa que é essencial consultar um especialista antes de tomar qualquer medida paliativa por conta própria.

Acompanhamento do clima - Previsões como a da organização meteorológica ligada à ONU servem, nas palavras de Moratelli, para indicar tendências. “A partir de um histórico – que leva em conta dezenas de dados, como temperatura das águas do Pacífico, deslocamento de massas de ar, velocidade dos ventos e outros – os meteorologistas conseguem comparar o passado com o presente, mas o grau da 'catástrofe' nós só saberemos, de fato, quando o fenômeno acontecer”, completa. Por hora, vale estar ciente das medidas de prevenção a eventos extremos e acompanhar o monitoramento climático feito dia após dia – “que é o que chega mais perto de consolidar previsões que se concretizam”, diz o secretário adjunto da Defesa Civil de Santa Catarina.